Nosso Blog
Dicas e informações para enriquecer o seu dia
letramento de gênero - definições de gênero psicologia

O que você vai ver neste artigo

Por que o letramento de gênero é essencial na terapia?

Letramento de gênero - definições de gênero

Quando o assunto é saúde mental, algumas pessoas podem imaginar que o sofrimento psicológico nasce exclusivamente da história individual: da infância, das relações familiares, dos traumas, da personalidade ou da forma como cada um de nós interpreta o mundo. Tudo isso, sem dúvida, faz parte da experiência de estar vivo, de ser humano. Mas existe uma dimensão que frequentemente passa despercebida e que atravessa todas essas outras: o contexto socio-cultural em que aprendemos a existir. É justamente nesse ponto que entra o letramento de gênero.

Embora muitas pessoas associem esse tema apenas ao feminismo ou às discussões sobre orientação sexual ou identidade de gênero, ele vai muito além. Compreender gênero é, antes de tudo, ampliar a capacidade de percepção de como a sociedade organiza nossas possibilidades de existir, de amar, de trabalhar, de cuidar, de desejar e até mesmo de sofrer.

Para mim, essa compreensão não é um conhecimento opcional para quem trabalha com saúde mental. Ela é uma ferramenta clínica fundamental. E, ao mesmo tempo, acredito que qualquer pessoa que esteja em um processo de autoconhecimento também pode se beneficiar enormemente desse olhar.

O que significa ter letramento de gênero?

Ter letramento de gênero não significa decorar conceitos ou adotar determinada posição política. Significa desenvolver sensibilidade para reconhecer que muitas experiências que parecem exclusivamente individuais também são produzidas por normas, expectativas e relações de poder construídas socialmente.

Desde muito cedo aprendemos, muitas vezes sem perceber, o que significa ser mulher, ser homem, demonstrar afeto, sentir raiva, cuidar dos outros, ocupar espaços de liderança, exercer a sexualidade, construir relacionamentos e lidar com o próprio corpo. Esses aprendizados aparecem na família, na escola, nas religiões, nos filmes, nas redes sociais, na publicidade, nas leis, no mercado de trabalho e em praticamente todas as instituições sociais.

Isso ocorre desde tão cedo (para nós e para quem participa do processo de nos criar/educar), que naturalizamos essas mensagens. Por naturalizar, quero dizer que entendemos que “as coisas são como elas são”, que são fadadas a ser assim. Chegamos até a pensar que é um reflexo da nossa biologia e deixamos de nos questionar sobre, apenas aceitamos.

Porém, ao estudar e se letrar sobre gênero, vamos percebendo que não é assim e, com isso, abrem-se possibilidades de nos questionarmos quanto à questões impostas sobre nós, o que, consequentemente, gera mais espaço, liberdade e possibilidades para nós mesmos, para nossa existência, nossa forma de ser no mundo.

A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) define gênero como um conjunto de normas, papéis e relações socialmente construídas, que influenciam profundamente a saúde física e mental das pessoas. E reconhece que gênero é um determinante social da saúde. Em outras palavras, não estamos falando apenas de identidades ou papéis sociais, mas de um conjunto de condições que influenciam o risco de adoecimento, o acesso aos serviços de saúde, a forma como sintomas são reconhecidos, o tratamento recebido e as possibilidades concretas de bem-estar.

Como a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) cita,

“As diferenças entre mulheres e homens definidas socialmente não constituem, em si mesmas, um problema, salvo quando limitam as oportunidades ou os recursos necessários para resultados de saúde e, por conseguinte, provocam discriminação e desigualdades que podem ter consequências negativas para a saúde.”

Quando um sofrimento individual também é um sofrimento social

gênero como questão social gerando sofrimento individual

Imagine uma mulher que chega ao consultório dizendo:

“Eu me sinto culpada o tempo todo. Parece que nunca sou boa o suficiente como profissional, mãe, companheira ou filha.”

É possível compreender esse sofrimento olhando apenas para sua história pessoal? Sim.

Mas essa compreensão ficará incompleta se ignorarmos que vivemos em uma sociedade que ainda atribui às mulheres uma responsabilidade desproporcional pelo cuidado das pessoas, da casa, dos relacionamentos e, frequentemente, também pelo sucesso profissional.

Da mesma forma, imagine um homem que relata enorme dificuldade para demonstrar vulnerabilidade, pedir ajuda ou falar sobre tristeza.

Poderíamos concluir rapidamente que ele “tem dificuldade de acessar as próprias emoções”. Mas também vale perguntar: em que contexto ele aprendeu que demonstrar fragilidade colocaria sua masculinidade em risco?

Essas perguntas não substituem a investigação da história individual. Elas a ampliam.

A clínica não acontece no vazio

Na Gestalt-terapia, abordagem com a qual trabalho, existe um conceito central chamado teoria de campo.

Em vez de compreender o indivíduo como alguém isolado do mundo, a teoria de campo parte do princípio de que toda experiência acontece na relação entre pessoa e ambiente.

Isso significa que ninguém sofre sozinho, nem produz sua forma de existir de maneira independente do contexto.

Família, cultura, raça, classe social, religião, orientação sexual, identidade de gênero, condições econômicas, relações de trabalho e normas sociais compõem o campo em que cada pessoa organiza sua experiência.

Por isso, quando uma psicoterapia desconsidera essas dimensões, existe o risco de transformar problemas sociais em problemas exclusivamente individuais.

É como tentar compreender um peixe sem considerar a água em que ele vive.

A OMS também aborda o impacto de questões sociais na saúde emocional. Acesse esse link para saber mais.

O perigo de individualizar tudo

questões sociais e indificuais nas vivências impactadas pelo gênero

Existe uma tendência bastante comum de interpretar qualquer sofrimento apenas como resultado da personalidade ou das escolhas individuais.

Essa forma de olhar pode produzir perguntas importantes, como:

“Por que você não consegue colocar limites?”

“Por que você continua nesse relacionamento?”

“Por que você sente tanta culpa?”

Mas, algumas vezes, faltam perguntas igualmente importantes:

Quem ensinou que colocar limites seria egoísmo?

Quem definiu que uma boa mulher deve priorizar sempre as necessidades dos outros?

Quem ensinou que um homem precisa resolver tudo sozinho?

Quem lucra quando determinadas formas de existir são consideradas naturais?

Essas perguntas não retiram a responsabilidade das pessoas sobre suas escolhas. Ao contrário, elas ampliam a consciência sobre os contextos em que essas escolhas foram aprendidas. E quanto maior a consciência, maior também a possibilidade de transformação.

O que isso muda na psicoterapia?

Uma das experiências mais potentes que observo no consultório acontece quando alguém percebe que determinadas formas de viver não nasceram com ela.

Uma mulher que sempre acreditou ser “difícil dizer não” pode começar a perceber que passou décadas sendo recompensada justamente quando colocava as necessidades dos outros acima das suas.

Um homem que acredita ser “frio” pode descobrir que passou a vida inteira aprendendo que expressar emoções colocaria em risco sua aceitação social.

Pessoas LGBTQIAPN+ frequentemente chegam à terapia acreditando que existe algo de errado consigo mesmas, quando, muitas vezes, grande parte do sofrimento foi produzida por experiências contínuas de exclusão, violência ou necessidade de ocultar quem são.

Esses exemplos mostram que compreender gênero não significa reduzir toda experiência humana às relações de poder. Significa reconhecer que essas relações fazem parte do campo em que nossa subjetividade é construída.

Um convite também para psicólogos

Para quem atua na clínica, desenvolver letramento de gênero é ampliar a própria capacidade de escuta.

Não significa interpretar todos os casos a partir do patriarcado ou abandonar outros referenciais teóricos. Significa reconhecer que nenhum sofrimento acontece fora da cultura.

Quando ignoramos gênero, raça, classe, sexualidade e outros marcadores sociais, corremos o risco de naturalizar desigualdades e interpretar adaptações ao contexto como se fossem apenas características individuais. E isso causa uma limitação, uma redução da capacidade da psicoterapia, ao passo que faz a pessoa-profissional olhar a pessoa-cliente de maneira igualmente limitada.

A clínica ganha profundidade quando conseguimos perguntar não apenas “quem é esta pessoa?”, mas também “em que mundo ela aprendeu a ser quem é?”.

Um convite para quem busca autoconhecimento

Talvez você nunca tenha pensado que questões como culpa, vergonha, perfeccionismo, dificuldade de estabelecer limites, medo do julgamento, exaustão ou conflitos nos relacionamentos também possam estar relacionadas às expectativas que aprendeu sobre como deveria existir.

Isso não significa que toda dor seja produzida pela sociedade, nem que a responsabilidade pela própria vida desapareça. Significa apenas reconhecer que nossa história pessoal nunca foi construída isoladamente.

Autoconhecimento também é descobrir quais ideias sobre amor, sucesso, masculinidade, feminilidade, sexualidade, cuidado e valor pessoal foram incorporadas ao longo da vida sem que tivéssemos a oportunidade de escolhê-las conscientemente.

A psicoterapia pode ser justamente esse espaço de investigação: um lugar onde não buscamos apenas compreender quem somos, mas também identificar quais partes de nós realmente nos pertencem e quais foram construídas como resposta ao mundo em que aprendemos a viver.

Porque, muitas vezes, aquilo que chamamos de “eu” também é uma história sobre o mundo que nos ensinou quem deveríamos ser.

Caso você queira saber mais sobre o assunto, eu indico essas leituras:

bell hooks — O Feminismo é para Todo Mundo

Silvia Federici — Calibã e a Bruxa

Simone de Beauvoir – O Segundo Sexo

Judith Butler – Problemas de gênero

Vou gostar de saber o seu comentário sobre este assunto

Maite-Ferreira-psicóloga-clínica-psicologa-online-foto-home-mulher-branca-mulher-morena-de-cabelos-pretos-foto-sobre-quadrada-red

Maitê Ferreira

Psicóloga clínica pela abordagem da Gestalt-terapia, especializada em sexualidade e gênero, atendimento a mulheres e público LGBTQIAPN+

Compartilhe este artigo

Você também vai gostar

Categorias
Maite-Ferreira-psicóloga-clínica-psicologa-online-foto-home-mulher-branca-mulher-morena-de-cabelos-pretos-foto-sobre-moldura
Ativo 2-Logo-maitê-ferreira-psicóloga-clínica-psicóloga-lgbtqiap+-psicóloga-online

Posts recentes

Sugestão de leitura

Clique para ver