
Nos contos de fadas aprendi que príncipes são indispensáveis para realizar sonhos e/ou nos salvar de situações difíceis, indesejadas. Só notei que tinha mesmo aprendido isso quando, tempos depois, confessei para mim mesma em terapia que esperava isso dos meus parceiros, das minhas relações afetivo-sexuais.
A Expectativa do Príncipe Encantado e a Busca por Sentido
Com certo constrangimento, fui percebendo (e tive que assumir para mim mesma) que criei a expectativa de que encontrar o parceiro ideal seria algo que traria um sentido para minha vida. Quer fosse pela construção de uma família ou pelo estabelecimento de um projeto de vida conjunto, era isso que eu achava que me motivava. E talvez, por isso, minha motivação tornou-se encontrar essa pessoa, essa relação.
Eu não notei que isso fazia eu tirar o meu protagonismo na minha narrativa de futuro para minha própria vida.
A Frustração e o Despertar: Redefinindo Relacionamentos Saudáveis
Foi pelas frustrações, a quebra das minhas expectativas, que fui me dando conta de que a relação por si só não trazia sentido e não havia garantia de que a promessa dos contos de fada fossem se concretizar. Além da frustração com os homens com quem me relacionei, tive frustração comigo mesma, com minha vida, por não encontrar mais sentido no que eu achava que seria meu motivador de vida.
E notei que muitas mulheres vivem nessa e por essa busca, sentindo-se numa eterna falta por não encontrarem seus príncipes na vida real. Desde roupas, procedimentos estéticos e escolha de lazer e eventos sociais, fazemos tudo em prol de encontrar a tal “tampa da panela”. E queremos uma tampa específica: a que se encaixe no que aprendemos ser o príncipe ideal (o homem que sabe mais, que vem e nos “salva”, nos tirando do suposto vergonhoso status de solteira e nos ascendendo ao imaculado status de casada). Ah e claro, todo príncipe é rico, ou mais rico que você pelo menos. Se não for em dinheiro, vai ser em beleza, em conhecimento…
Você tem noção do impacto disso para sua percepção de si mesma e da sua vida? Essa noção demorou para chegar para mim e quando chegou, caiu como uma bomba!
A Pressão Social e a “Prateleira do Amor”: O Protagonismo Feminino em Jogo
Estamos direcionando nosso tempo e dinheiro para nos moldarmos a padrões que nos colocam no topo da prateleira do amor. Queremos estar no topo para sermos escolhidas, para conquistar pessoas que, sem perceber, colocamos no alto de um pedestal e permitimos que comandem nossas vidas, porque acreditamos que são melhores que nós.
Numa dessas, a relação que achávamos que nos causaria um bem acaba nos aprisionando. De repente, você está vivendo para a relação, para que ela exista, se mantenha, esteja bem. Abre mão de seus planos pessoais, de sua vida social para manter o parceiro feliz e a relação em pé… E, aos poucos, sem se dar conta, começa a viver em prol de alguém ou algo externo a você. A relação, que parecia ser o que você queria, um projeto seu, se torna cuidar de alguém, da vida de outro, às custas da sua própria vida.
O Impacto do Amor Romântico e do Patriarcado: Desconstruindo Crenças
A ideia de que a mulher deve ser a cuidadora principal, a guardiã do lar e a eterna companheira é um legado pesado da cultura monogâmica e patriarcal. E o amor romântico, com sua promessa de completude e sacrifício, é a ferramenta perfeita para nos manter nesse lugar.
A cultura católica e a monogamia, historicamente, impuseram ao gênero feminino a “vocação” para o cuidado e as tarefas domésticas. Um trabalho exaustivo, não remunerado e invisibilizado. Essa estrutura rouba de nós, mulheres, o tempo, a energia e até a legitimidade para investir em nossos próprios projetos, sonhos e ambições. Nossos potenciais ficam adormecidos em nome de um ideal. O mito do amor romântico é o grande cúmplice dessa narrativa. Ele nos cega, fazendo-nos crer que não há nada mais digno e valoroso do que “encontrar o amor da vida” e viver para ele.

A Terapia como Caminho para a Liberdade e o Autoconhecimento
Mas a solução é deixar de se relacionar? Eu acho que não.
Vejo na terapia a possibilidade de a gente descolar o olhar do que foi imposto e focar no que nos liberta e possibilita viver algo nutritivo além de com sentido e valor para nós. É um tempo-espaço para reencontrar com a nossa essência, desconstruir crenças que nos aprisionam e criar uma nova narrativa que faça sentido sem que nos consuma, onde a liberdade, autenticidade e a autorresponsabilidade são as bússolas.
Quando aprendemos sobre nós e nossas expectativas nas relações, saberemos como propor isso aos parceiros (atuais ou futuros) e estaremos fortalecidas para definir e respeitar nossos limites no processo de se relacionar.
Minha Experiência com a Não-Monogamia: Redefinindo o Afeto
Eu ainda quero e amo me relacionar. Amo tanto me relacionar que fui me reconhecendo uma pessoa não-monogâmica, poliamorosa. E isso também me ajudou a ajustar as expectativas com as relações, a partir de compreender melhor o que eu realmente poderia encontrar de significativo nos encontros afetivo-sexuais.
Ou seja, ainda acredito que relações ajudam na autoestima, na autoconfiança e na esperança em viver. Porém, para isso, elas precisam ser saudáveis. Para que sejam assim, a forma de se relacionar precisa ser saudável e, no meu caso, identifiquei que seria impossível encontrar saúde em relações de controle, posse de corpos e desejos, hierarquia e regras veladas pautadas em valores morais os quais não compartilho.

Conclusão: O Convite ao Protagonismo e a Desconstrução do Amor Romântico
Reconhecer que o modelo tradicional de amor muitas vezes nos adoece não é um caminho de isolamento, mas de libertação. Ao escolher a não-monogamia e o poliamor, não abdiquei do afeto; pelo contrário, escolhi vivê-lo sem as amarras da posse e do controle que antes me sufocavam.
Hoje, entendo que a relação mais importante que cultivo é aquela que me permite ser inteira, sem precisar me diminuir para caber na expectativa de ninguém. O convite que faço a você, que me lê, não é necessariamente para mudar sua forma de se relacionar, mas para questionar: a sua busca pelo amor tem te aproximado ou te afastado de si mesma?
Que possamos, juntas, descer do pedestal que colocamos os outros e retomar o lugar que sempre foi nosso: o de protagonistas das nossas próprias histórias. Afinal, o sentido da vida não está em encontrar a ‘tampa da panela’, mas em descobrir que somos a própria cozinha, o banquete e a festa.
Se você quer saber mais sobre o assunto de forma técnica, indico os seguintes artigos:
- A caminho do “amor confluente” ou o retorno ao mito do “amor romântico”? Este artigo traz uma perspectiva da psicologia social sobre o impacto do amor romântico nas relações, especialmente para as mulheres, e porque esse conceito ainda é tão supervalorado em nossa cultura.
- O Mito do Amor Romântico e a Perpetuação da Violência Doméstica Como o nome já diz, esse artigo discute como a violência de gênero ganha espaço nas relações a partir de ideias sustentadas pelo conceito de amor romântico.
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