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Violência contra mulher e relacionamento abusivo

O que você vai ver neste artigo

A violência contra mulher não começa com um tapa: como o relacionamento abusivo se constrói

imagem ilustrativa: homem gesticula e parece gritar com mulher, cuja imagem se desfaz

O início silencioso da violência

Uma das maiores distorções quando falamos de violência contra mulheres é imaginar que ela começa de forma explícita e imediata. Na prática clínica, vejo o oposto: a violência costuma começar de maneira silenciosa, progressiva e difícil de nomear.

Ela aparece no controle disfarçado de cuidado, no ciúme romantizado, na crítica constante, na invalidação emocional e na tentativa de regular comportamentos cotidianos. Aos poucos, a mulher vai perdendo referência de si mesma, da própria percepção e dos próprios limites. O que antes parecia amor passa a gerar medo, confusão e insegurança.

Esse início sutil é justamente o que torna a violência tão difícil de reconhecer. Muitas mulheres chegam à terapia dizendo que “não sabem explicar” o que está errado, apenas sentem que algo não está bem. Esse mal-estar difuso é um dos primeiros sinais de que a relação deixou de ser um espaço de encontro e passou a ser um espaço de vigilância e controle.

Violência psicológica também é violência

A violência psicológica é uma das formas mais frequentes e invisibilizadas de violência de gênero. Ela não deixa marcas evidentes no corpo, mas produz feridas profundas na subjetividade.

Desqualificar sentimentos, ridicularizar emoções, distorcer fatos, inverter responsabilidades e responsabilizar a mulher pelos conflitos são práticas comuns em relações abusivas. Com o tempo, a mulher passa a duvidar de si, da própria memória e da própria capacidade de julgamento. Esse fenômeno, muitas vezes chamado de gaslighting, compromete seriamente a autonomia psíquica.

A naturalização desse tipo de violência faz com que muitas mulheres permaneçam em relações adoecedoras por anos, acreditando que o problema está nelas e não na dinâmica relacional. Psicologicamente, isso gera confusão, culpa crônica e sensação de inadequação constante.

O ciclo da violência e a ambivalência emocional

Muitas relações abusivas seguem um ciclo relativamente previsível: fase de tensão crescente, explosão de violência e fase de reconciliação. Após o episódio violento, o agressor pode demonstrar arrependimento, pedir perdão, prometer mudanças e intensificar demonstrações de afeto.

Essa fase de aparente reparação reforça o vínculo emocional e cria esperança de transformação. Do ponto de vista psicológico, isso gera ambivalência: a mulher sofre, mas também se apega à ideia de que aquela não é a totalidade da relação. Essa ambivalência não é fraqueza, é um efeito do vínculo afetivo sob violência.

Por que é tão difícil sair de uma relação abusiva?

Perguntar por que uma mulher não sai de uma relação abusiva é uma das perguntas mais comuns — e também uma das mais injustas. Permanecer não é sinal de fraqueza ou falta de informação, mas resultado de um contexto complexo que envolve medo real, ameaças explícitas ou implícitas, dependência emocional, dependência financeira e isolamento social.

Além disso, o processo contínuo de desqualificação vai reduzindo a confiança da mulher em sua própria capacidade de decisão. Muitas passam a acreditar que não sobreviveriam sozinhas ou que não seriam capazes de reconstruir a própria vida.

Impactos na saúde mental das mulheres

Os impactos da violência na saúde mental são profundos e duradouros. Mulheres que vivem ou viveram relações abusivas apresentam maior risco de ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático, adoecimento psicossomático, distúrbios do sono e ideação suicida.

Além dos sintomas clínicos, há impactos na forma como essa mulher passa a se relacionar consigo mesma e com os outros. Confiança, espontaneidade e sensação de segurança ficam comprometidas, exigindo um trabalho psicológico cuidadoso de reconstrução.

Reconhecer que a violência não começa com um tapa é fundamental para interromper o ciclo antes que ele se agrave. Nomear a violência psicológica é um passo essencial para proteger a vida e a saúde mental das mulheres.

Neste outro texto, falo sobre como a cultura e a sociedade são parte do problema da violência contra as mulheres e trago reflexões sobre o que precisa ser repensado e melhorado.

Se você está passando por tal situação ou conhece alguém que esteja, seguem canais de apoio e ajuda:
Sistema de denúncia anônima 180

Rede de atendimento por região (centros de referência, casas abrigo, juizados e delegacias especializadas e serviços de saúde).

Vou gostar de saber o seu comentário sobre este assunto

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Maitê Ferreira

Psicóloga clínica pela abordagem da Gestalt-terapia, especializada em sexualidade e gênero, atendimento a mulheres e público LGBTQIAPN+

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