
Prevenção não é adaptação
Prevenir violência contra mulheres implica em esclarecer um ponto central: prevenir não é ensinar mulheres a se adaptarem ao risco, a serem mais cuidadosas, precavidas ou a se responsabilizarem pela própria segurança em contextos violentos. Prevenção real implica transformar as condições sociais, culturais e relacionais que produzem a violência e isso inclui a sociedade como um todo.
Durante muito tempo, o discurso preventivo esteve centrado em orientações direcionadas às mulheres — como se vestir, por onde andar, quando sair, como falar. Esse tipo de abordagem não previne a violência; apenas desloca a responsabilidade para quem sofre. Uma prevenção ética começa quando a sociedade passa a questionar por que a violência acontece e quem se beneficia da sua normalização.
Educação emocional como base da prevenção
Um dos pilares mais consistentes da prevenção da violência de gênero é a educação emocional. Saber reconhecer emoções, lidar com frustrações, elaborar conflitos e respeitar limites são habilidades fundamentais para relações saudáveis, mas ainda pouco ensinadas socialmente.
Do ponto de vista psicológico, muitos episódios de violência estão associados à incapacidade de lidar com frustração, rejeição e perda de controle. Em vez de elaborar essas experiências emocionalmente, o agressor recorre à imposição, à intimidação ou à agressão como forma de restauração de poder.
Investir em educação emocional desde a infância — nas famílias, nas escolas e nos espaços comunitários — é uma estratégia preventiva de longo prazo. Isso envolve ensinar que conflito não é ameaça, que limite não é desrespeito e que o outro não é propriedade.
Masculinidades e revisão de modelos de poder
Falar de prevenção da violência contra mulheres exige, necessariamente, falar de masculinidades. Muitos homens foram socializados em modelos que associam valor pessoal à dominação, ao controle e à supressão da vulnerabilidade emocional.
Esses modelos não apenas produzem violência contra mulheres, mas também adoecem os próprios homens, que passam a ter poucas ferramentas psíquicas para lidar com sofrimento, frustração e perda. Questionar essas construções não é atacar os homens, mas ampliar possibilidades de existência e relação.
Neste texto, falo sobre como a cultura e a sociedade são parte do problema da violência contra as mulheres e trago reflexões sobre o que precisa ser repensado e melhorado. E neste outro post, discuto o ciclo da violência, mostro como identificar sinais de que o cenário está se agravando e como lidar com isso.
Se você está passando por tal situação ou conhece alguém que esteja, seguem canais de apoio e ajuda:
Sistema de denúncia anônima 180
Rede de atendimento por região (centros de referência, casas abrigo, juizados e delegacias especializadas e serviços de saúde).







