
A violência contra mulheres não é exceção, é padrão.
Quando falamos em ódio às mulheres, muitas pessoas ainda tentam localizar o problema em indivíduos isolados: homens violentos, relações específicas, histórias “mal resolvidas”. Como psicóloga clínica, eu preciso afirmar com clareza: a violência contra mulheres não é um desvio individual, é um fenômeno estrutural, histórico e socialmente sustentado.
Os dados sobre feminicídio e violência doméstica mostram uma repetição que não pode ser ignorada. Mulheres são violentadas, ameaçadas e mortas majoritariamente por parceiros ou ex-parceiros, dentro de casa, em relações que deveriam ser espaços de cuidado. Quando um fenômeno se repete dessa forma, ele deixa de ser exceção e passa a ser padrão. E padrões não se explicam apenas pela psicologia individual.
O que significa falar em ódio às mulheres?
Falar em ódio às mulheres não significa dizer que todos os homens odeiam mulheres ou que a violência acontece apenas por ódio consciente. Na prática, esse ódio aparece de formas muito mais sutis e socialmente aceitas: na desqualificação constante do homem em relação à mulher, no controle da autonomia feminina, na tentativa de silenciar desejos, opiniões e limites.
O homem aprende que seus desejos, necessidades e limites são mais válidos, mais importantes do que os das mulheres. Esse aprendizado ocorre de maneira indireta. Ou seja, ninguém fala explicitamente aos meninos que eles são superiores, mas a maneira como ensinam meninos a ridicularizar e inferiorizar as mulheres, bem como a maneira como naturalizam que os meninos imponham suas vontades e vejam as mulheres como inferiores (pessoas que tem que aceitar, calar, falar baixo, serem boazinhas, servidoras, cuidadoras, etc.) faz com que eles apenas aceitem que “as coisas são assim” e isso influencia seus comportamentos.
E essa inferiorização da mulher pelos homens muitas vezes se disfarça de amor, cuidado ou proteção. Frases como “é para o seu bem”, “você está exagerando”, “ninguém vai te amar como eu” não são neutras. Elas expressam uma lógica onde a mulher não é vista como sujeito pleno, mas como alguém que precisa ser conduzida, corrigida ou contida.
Quando uma mulher é punida por dizer não, por querer terminar uma relação ou por não se adequar ao papel esperado, estamos diante de uma estrutura que reage à autonomia feminina com violência. É violento limitar, censurar, invalidar o direito, os desejos e os limites de outra pessoa.
Patriarcado, poder e subjetividade
Do ponto de vista psicológico e social, a violência de gênero está profundamente ligada a relações assimétricas de poder. Vivemos em uma cultura patriarcal que, historicamente, ensinou mulheres a se adaptar, suportar e compreender, enquanto ensinou homens a controlar, decidir e dominar.
Esses ensinamentos não desaparecem com o passar das gerações. Eles se atualizam nas relações afetivas, no mercado de trabalho, na política e na vida doméstica. O resultado são vínculos em que o conflito não é elaborado por meio do diálogo, mas imposto por meio do medo, da intimidação ou da agressão.
Na clínica, é comum observar como essas dinâmicas são naturalizadas. Muitas mulheres não reconhecem de imediato que estão vivendo violência porque aprenderam que amar é ceder, que conflito é culpa sua e que suportar faz parte de ser mulher.
Violência de gênero como problema psicológico e social
É importante afirmar: reconhecer a dimensão estrutural da violência não elimina a responsabilidade individual do agressor. Pelo contrário. Ela amplia a compreensão de como certos comportamentos são aprendidos, reforçados e legitimados socialmente.
A violência contra mulheres é, ao mesmo tempo, um problema psicológico, social e político. Ela adoece mulheres, famílias e comunidades inteiras. Produz medo, silenciamento e retraimento da participação feminina na vida social.
Por que falar disso é fundamental
Enquanto insistirmos em tratar a violência contra mulheres como algo pontual ou como resultado de relações “doentias”, continuaremos agindo apenas nas consequências mais graves, como o feminicídio. Nomear o problema, reconhecer seu caráter estrutural e falar sobre ódio às mulheres é um passo essencial para interromper sua repetição.
Neste outro texto, detalho o ciclo da violência e como o relacionamento abusivo passa da violência psicológica para a física. Te ajudo a identificar as situações e refletir sobre possibilidades de proteção e mediação.
Se você está passando por tal situação ou conhece alguém que esteja, seguem canais de apoio e ajuda:
Sistema de denúncia anônima 180
Rede de atendimento por região (centros de referência, casas abrigo, juizados e delegacias especializadas e serviços de saúde).







